
Texto não recomendado para quem não conhece a série MGS.
Se você jogou Metal Gear Solid, tanto a versão revolucionária de 1998 quanto o remake no Game Cube, provavelmente reparou na curiosa batalha contra o vilão Psycho Mantis.
Sendo o primeiro game com atores de verdade fazendo as vozes dos personagens, Metal Gear não parou a mudança que causou no mercado de games apenas inserindo interpretação cinematográfica aos jogos eletrônicos. Mantis pergunta ao herói Snake o que ele anda jogando ultimamente. Através de um mecanismo realmente curioso, Hideo Kojima inseriu no game falas do personagem comentando seus saves de Memory Card, como se estivesse invadindo sua mente. As falas sarcásticas de Mantis sobre o seu game Castlevania trazia uma nova visão dos jogos, que trouxe uma interatividade própria de Metal Gear Solid.
O grande baque veio em Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty. Jogando inicialmente com Solid Snake, o jogador era surpreendido por uma súbita interrupção da narrativa, que inseria o novato Raiden como protagonista. Acabando com a figura do herói clássico do game de espionagem, você interpretava um iniciante repleto de inseguranças. O jogo inteiro deu a entender, com a construção dos vilões Solidus e Ocelot, uma imensa sensação de simulação, identica à experiência em Shadow Moses no Metal Gear Solid 1. A grande mensagem final dessa sequência era: Você pode interpretar um gamer dentro de um videogame. O grande vilão da série se tornou uma rede de computadores que manipula o governo americano. Mas Kojima não ficou satisfeito em mandar apenas essa mensagem.
Metal Gear Solid 3 reinventou o próprio protagonista Solid Snake. Voltando à 1964 e estabelecendo um marco zero na série de todos os jogos MGS e Metal Gear, Kojima nos mostra Big Boss, o primeiro vilão e pai biológico de Snake, identico ao próprio herói durante a Guerra Fria. A semelhança de ambos destruiu o dicotomia simplista que existia na história, colocando uma narrativa complexa entre pai e filho, soldado original e seu clone.
Metal Gear é uma franquia que começou imitando Rambo e filmes de espionagem e desembocou no questionamento sobre o próprio ato de jogar, com inimigos que reconhecem sua memória, histórias que fazem simulações e protagonistas que se transformam. A contribuição desse fenômeno é insuperável, tanto para os games como mercado, quanto para as pessoas que o definem como arte.



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